29/12/10

Buracos no coração

A sua figura estava sempre delineada por nuvens cinzentas,
E falava sempre alto demais, ou baixo demais,
Oscilando entre o sorriso triste
E o semblante carregado.
Caminhava como se não quisesse chegar a lado nenhum,
E talvez não quisesse mesmo,
Ou então só lhe doíam os pés e os joelhos.
Não. O que me dói é o coração.
Os olhos enchiam-se de chuva
Quando olhava muito tempo para o vazio.
E, por isso, evitava fazê-lo:
Estava sempre com os olhos pregados em letras e palavras,
Presas a páginas que se moviam freneticamente.
Parecia nervosa e, em simultâneo apática.
Nunca cheguei a saber como se chamava,
Porque a única vez que me falou,
Quando a vi através de um vidro emoldurado,
Foi para me dizer, com um sorriso de pedinte:
Porque é que toda a gente tem tanto a dizer sobre buracos no coração
E nunca ninguém me disse como se tapam?

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