Não. Nada disso. O verdadeiro desencontro é o que ela, com os seus cabelos castanhos, representa para ele; e o que ele, com os seus olhos de cor indefinida, representa para ela. Não são formas diferentes de ver o amor. O desencontro consiste na presença ou ausência dele. O que ele pretende dela é a conquista. Ele gosta do flirt, de dizer as palavras certas na altura certa e, com elas, encantar; gosta do jogo de pormenores e de acções, de explorar, de descobrir, de desvendar e, com as suas palavras, prender e desprender. É isso que ele pretende, é isso que lhe dá prazer: a persuasão, a vitória, a conquista. É tudo um jogo com várias direcções, com várias opositoras. Assim, para ele, ela não é mais que uma peça de um jogo do qual ele tira o mais que pode sem que isso implique de tenha de dar de si em retorno. E não quero, com isto, dizer que ele é insensível, que tem mau carácter e intenções menos nobres. Não. Ele não pretende, com o seu jogo, magoar ninguém. Até porque é algo inconsciente. A verdade é que a destruição que ela sente em si não é culpa dele. A culpa é do desencontro. Ela não gosta de jogar. As suas palavras não têm qualquer fim a não ser precisamente a verbalização dos seus sentimentos. É que ela às vezes sente tanto que as palavras transbordam, e ela tem de as dizer. E este sentimento é algo tão exclusivamente intenso que ela só experiencia com uma pessoa de cada vez.
É esse o grande desencontro: para ele, ela é uma peça de um jogo cujo fim é a exploração e a vivência, é uma peça no meio de muitas outras peças, que ele joga em simultâneo; para ela, ele é sem dúvida exclusivo, não é uma peça, é o todo, o único todo.
21 de Novembro de 2009