18/07/09

Aconchego

Quando acordei, reparei que estava sozinha.

Falei para tudo em meu redor,
Na esperança vã de obter resposta,
E abracei-me a mim mesma,
Na esperança vã de me aconchegar.
Chorei e fui o meu próprio ombro,
E nas (raras) vezes em que sorri,
Apenas eu sorri comigo.
Quando caí, tropeçada na minha sombra,
Levantei-me com a ajuda da minha própria mão.

Apenas o vento gelado melodizava a minha solidão,
Acompanhado pelo som de correrias ao longe.

E eu senti tanto frio.

Quando acordei, quis que me abraçasses.
Talvez assim o vento não fosse mais gelado,
Talvez assim as correrias não fossem um som tão distante.

18 de Julho de 09

10/07/09

O meu querer

Às vezes sinto-me tão pequena,
Como se o céu fosse demasiado longe para eu tocar.
E depois tu lembras-me que eu posso chegar onde quiser.

Às vezes sinto-me tão fraca,
Como se o vento que sopra fosse forte o suficiente para me derrubar.
E depois tu lembras-me que eu só cedo quando quiser.

Às vezes sinto-me tão perdida,
Como se o mundo fosse uma estrada demasiado longa para eu caminhar.
E depois tu lembras-me que há sempre lugar para eu pisar onde quiser.

Às vezes sinto-me amparada,
Como se estivesses presente em cada momento que eu precisar.
E depois percebo que tu não és real,
E tu lembras-me que existes sempre que eu assim quiser.
9 de Julho de 2009

09/07/09

Ilusões

Eu sou a figura pequena
Deambulando determinada pelas ruas
Que se perde na imensidão.
Eu sou essa espécie de sombra
Que olha invariavelmente para cima
Nunca para baixo.
E podes ver-me quando quiseres
Admirando as nuvens no céu
E as árvores estendendo-lhes os seus ramos.
E podes ouvir-me sempre que precisares
Cantando baixinho enquanto caminho.
Às vezes falo para mim,
Porque nem sempre consigo manter
Todos os meus pensamentos
Dentro da minha cabeça.
Sim, eu sou essa figura meia perdida
Com um ar convicto e concentrado
Mas sempre com uma névoa sonhadora no olhar
E reparei que tens olhado para mim,
Escondendo-te atrás dos muros
E seguindo os meus passos.
Não penses que eu sou o que tu pensas
Pois o que quer que estejas a pensar, não o sou.
Sou sempre mais difícil que isso
E, sim, muito mais estranha,
Como uma espécie de irrealidade
Inesperadamente figurada em mim.
Mas podes continuar a observar-me
Que eu vou continuar a fingir-me razoável
Só para que me possas ver.
8 de Julho de 2009

05/07/09

Hoje deitei-me sem nada para sonhar
E isso assustou-me profundamente.
Espremi-me, contorci-me,
Vasculhei por todo interior do meu ser,
Mas não encontrei nada
E nesse momento senti-me temerosamente vazia.
É como se dentro de mim não houvessem mais fantasias,
Mais pensamentos agradáveis.
Como se nada mais me emocionasse,
Nada mais tomasse o controlo sobre mim,
Nada me fizesse sorrir compulsivamente.
E isso assustou-me tanto.
Tenho muito medo, sabes?
Medo de que nada mais me faça o coração acelerar,
Medo de que ele continue a bater eternamente
Neste ritmo regular.
Tenho medo da monotonia,
Medo da razão,
Medo da sobriedade.
Por isso, se me fizeres sentir alguma coisa, podes entrar.
Não importa que me magoes.
Se me fizeres sofrer, não me interessa,
Contando que eu sinto alguma coisa.
Vem, entra. Desde que me dês algo com que sonhar.


5 de Julho de 09

04/07/09

A história da nossa passagem

A melodia ecoa na sala vazia e infértil
Ilustrando a nossa passagem,
Porque nem tudo se transpõe em palavras
E estas palavras não existem
Teríamos de as inventar.
E a melodia prossegue, ressoando
No vácuo da nossas mentes
Enchendo-as de memórias
Da nossa passagem.
Pelo tempo que desperdiçámos
Com palavras ocas, triviais e comuns,
Tentando descrever o indescritível,
Verbalizar o coração,
Vamos reescrever
A história da nossa passagem.
Não vamos desperdiçar as letras
Nem perturbar o silêncio
Com palavras que se perderam.
Não. Vamos reescrevê-la com melodias.
Deixemos os verbos de parte,
Na história da nossa passagem.
4 de Julho de 2009

03/07/09

Cordas

Foi assim que me amarraste, com apenas um olhar,
Uma expressão nos teus olhos que me atou
Como muitas cordas, impedindo-me os movimentos.
E com apenas uma palavra emudeceste-me de tal forma
Que não disse nada, apesar dos inúmeros pensamentos
Que assomaram, no momento, à minha mente.
E por favor não o repitas.
Não voltes a olhar-me dessa forma,
Não pronuncies de novo tais palavras,
Não, eu nunca mais quero perder a coerência.

E vou repetir estas palavras tantas vezes,
As vezes necessárias para que se tornem verdade,
Como se de facto eu não gostasse do que ouvi,
Como se eu tivesse ficado igual depois de ver como me olhaste.
É impossível.
Não posso escondê-lo, nem de mim mesma,
Que gostava que me deixasses uma vez mais sem palavras.


2 de Julho de 2009

01/07/09

Desfecho

Cada passo que dou nesta estrada cujo fim sou eu mesma
Parece afastar-me mais e mais do seu termo.
E, assim, pergunto-me porque é que repito sem fim os mesmos erros.
Eu sei que percorro o meu caminho por vias erradas,
Piso chãos que não me pertencem,
E ainda assim tenho a ilusão de vir atingir o fim.
Porque é que eu insisto em procurar-me dentro de ti?
(porque eu não me consigo ver em mim,
mas apenas reflectida nos espelhos dos outros)
Eu sei que se eu seguisse o meu caminho
Indiferente, independente, determinada,
Se respeitasse as fronteiras e tomasse as direcções certas,
Se eu caminhasse sempre na mesma linha,
Em vez de me guiar por forças desconhecidas
Que me fazem andar em curvas fechadas,
Eu iria dar comigo mais depressa.
Mas não. Eu escolho andar em círculos,
Ou pelo menos não me consigo forçar a outra maneira,
E cruzo caminhos,
Avanço e regresso,
E é assim que tento descobrir quem eu sou.

E o estranho é que eu sei que é por isso que a cada passo que dou,
Estou mais longe, mais distante ainda,
Do fim, que sou eu mesma.

Talvez esteja na altura de mudar.

30 de Junho de 2009

29/06/09

Mil novecentos e oitenta e quatro

Bastou-te ver a tua imagem reflectida no espelho
Para que tudo mudasse, não foi?
Talvez sobrevalorizes demais esse reflexo,
Mas sim, és mesmo tu que te fitas com esses olhos cansados
E és mesmo tu que moves os maxilares,
Na tua cara ossuda e emagrecida
Pelo tempo que te privaram de comida.
Sim. És tu. E se és tu, corpo pequeno e frágil,
Diminuído pela doença,
Massacrado pela tortura,
A única esperança que nos resta,
Então devo dizer-te, meu amor,
Que estamos certamente condenados.
Mas isto sou só eu a falar e, por favor, não me ouças.
Ignora o que vês.
Sentes-te um herói?
Então sê um herói,
Mesmo que tenhas a aparência de um derrotado.


29 de Junho de 2009

26/06/09

Nós e os outros

.
Talvez não seja tão mau ser como os outros.

E ficamos a pensar nestas palavras,
Quando desejamos profundamente que nos digam
O mesmo que dizem às outras pessoas.
Porque nós também sentimos,
Embora tentemos escondê-lo,
E à noite, também sonhamos,
E quando sofremos, também choramos,
Embora tentemos escondê-lo.
Não, não somos assim tão diferentes.

E por mais voltas que demos,
Por mais tentativas frustradas que façamos
Para nos desviar do caminho,
Nós acabamos sempre por caminhar
Na mesma estrada que os outros.

E por mais que tentemos isolar-nos das melodias românticas,
De todas as frases sentimentais,
De todos os pensamentos influenciados pela emoção
E afastados da razão,
Nós acabamos sempre por sentir
Da mesma forma que os outros.

E é por isso que reflectimos
Naquilo que nos disseste um dia:
Talvez não seja tão importante ser diferente,
Talvez seja bom perdermo-nos no amontoado de pessoas
Que caminham ao nosso lado todos os dias.
Talvez não precisemos de falar mais alto,
Nem de maneira diferente.
Talvez nos possamos perder nos sentimentos
E por vezes, afastarmo-nos da razão.

Talvez.

Talvez não seja tão mau ser como os outros.

26 de Junho de 2009

21/06/09

Negação

Tudo é permanente.
Algumas coisas vamos esquecendo,
Embrulhando em rituais,
Enterrando no profundo,
Sobrepondo e camuflando,
Mas nada se perde realmente.
E um dia, inevitavelmente,
Tudo regressa nós
E os erros que fizemos por esquecer
Serão pagos a dobrar.

Não se pode reescrever o passado
Não se pode apagar o que está feito
Não se pode esquecer de verdade,
Mesmo o que fizemos por apagar.

20 de Junho de 2009

16/06/09

Inerte

Ao meu redor inúmeros corpos indistinguíveis movimentam-se,
Correm para todos os lados a velocidades estonteantes,
Vozes misturam-se e ressoam na minha cabeça
E apesar de estarem tão próximas,
De ocuparem todo o ar à minha volta,
Ouço-as como uma sinfonia distante e imperceptível.
Tudo à minha volta é movimento:
É a mudança em forma de sons, cores e velocidades,
São etapas a suceder-se, ciclos a fechar-se, erros a repetirem-se,
É a mesma felicidade a ser construída e a desmoronar no mesmo instante.
Tudo à minha volta é mudança,
Tudo se move como que arrastado por uma forte corrente.
Tudo cede.
Ninguém parece resistir.
Menos eu.
Eu permaneço no mesmo lugar
E pareço ser a única pessoa que vai ficando,
Como uma pedra demasiado pesada para ser arrastada.

Tu muda, tudo se move, menos eu.

16 de Junho de 2009

09/06/09

Nunca

Não me compres rosas
Não me observes ao longe
Não me escrevas poemas
Não me beijes nos teus sonhos
Não os verbalizes nunca
Não te cruzes comigo na rua
Não me afugentes da tua mente
Nunca te esqueças que me queres
E que sou eu quem não te quer a ti.

Junho

Há muito mais a dizer
Do que transpões em palavras.
Há muito mais no viver
Do que ansiar por ti.
E porque me ofereces o mundo
Se ele não te pertence?
Porque me ofereces o coração
Se não o poderás controlar?

Há muito mais num segundo
Que o som de um palpitar.
E as nossas almas corrompidas,
As nossas mentes encardidas
Serão sempre indignas de amar.

O céu tem muito mais
Que o simples brilhar das estrelas
E por certo não merecemos
Apenas vê-las a elas.
O mundo é muito mais
Que o som de gargalhadas,
Soframos pois no presente
A dor das falhas passadas
(pois se somos seres perfeitos
não podemos nunca errar).

Sim, há muito mais na vida
Do que viver para amar.

9 de Junho de 09

06/06/09

Remoer

Gostava de saber porque é que eu me sinto assim
(ainda).
Queria tanto saber porque é que o teu nome
Associado a outras palavras
Ainda me perturba.
Foste assim tão importante para mim,
Que passado tanto tempo
(e ao contrário do esperado)
Ainda não tenhas esvanecido?

Porque é que não morres dentro de mim?
Porque é que continuas a respirar,
Lá no fundo, bem no fundo,
Num sítio ontem só os sonhos chegam?

6 de Junho de 2009

02/06/09

Enganos de um sentimento

Como quando nós pegámos no mundo como se fosse só nosso e o escondemos de toda a gente. Ninguém o pôde ver mais. Ninguém o pôde viver. E depois rimo-nos de todos, como se partilhássemos algo que nunca ninguém antes viu. Quão iludidos estávamos! Nada é segredo, pois tudo já aconteceu antes. Não somos únicos: o que sentimos não é restrito. E por isso não posso nunca dizer que és particular. Pois não és. És nada mais do que um igual aos outros. E eu?


Eu sou uma como todas aquelas que pisaram o teu chão.

2 de Junho de 09

01/06/09

Provir

Pelo calor de tantos sóis, nós gritámos
E na sombra de tantas árvores, amámos.
Amámos como quem ama sonhos e paisagens,
Sonhámos como quem sonha palavras e imagens.
E por baixo de tantas chuvas,
Tão lentas e persistentes chuvas,
Fugimos e refugimos,
Fomos e retornámos.
E tantas luas espelharam o sol desde esse dia
E tantas nuvens o tentaram encobrir.
E ainda assim aqui estamos,
Erguidos de tantas cinzas,
Cada uma mais pesada, cada uma mais forte.
Ainda assim aqui estamos
Capazes de sorrir perante a tristeza
E triunfar na derrota.

Porque por cada sol que morre
Nasce um novo no céu.

1 de Junho de 2009

26/05/09

Segredo

Escrevi, no meu papel, toda a verdade,
Lembrada num sonho acordado
E chorada num pensamento adormecido.
Escrevi-a e guardei-a no meu bolso.
Enterrei-a no mais fundo de mim,
E, habilmente, forcei-me a esquecê-la.
Tudo para que um dia viesses,
Com o teu olhar inquiridor,
Trespassar a minha mente,
Desprender o meu íntimo,
E descobri-la, há tanto tempo cravada.
E perdoa-me que eu não te contasse
Aquilo que outrora eu fui.
Mas tu abriste as minhas portas
E leste as minhas memórias,
Uma vez escritas em papel.

E agora, nunca te poderei negar
O quanto, um dia, eu amei.
Como os outros que por ti passam,
De olhos cintilantes,
Peitos ressoantes
E mentes iludidas.
Agora, não poderei desmentir
Que um dia, em tempos, vivi.

26 de Maio de 2009

17/05/09

Clouds

I can’t stand no more clouds
Stealing away the sun
No more heavy clouds
Suffocating me.
Is getting hard to breath
And I can’t stand no more darkness,
I guess I need a little warmth.
I don’t want to see
Those dreadful clouds, no more,
I don’t want to hear your screams
Disturbing my beautiful spring.
I need the sun shining upon my thoughts
Please, hold your sorrow
And let it shine on me.

17 de Maio de 2009

Encanto

Pisando as folhas secas de Outono
Deixadas no chão molhado ao abandono
Caminho convicta ao teu encontro,
Que me esperas, junto dos verdes portões.
Mergulhada na mais profunda alegria,
Imersa na tua recordação,
Caminho convicta ao teu encontro,
Num constante acelerar do coração.
E lá estás, aguardando nos portões:
O meu propósito, o motor do meu andar,
Rodeado dos tons quentes de Outubro,
Contendo um súbito júbilo de amar.
E moderando com força o meu enlevo
Observo-te paciente no teu recanto.
Mas não posso deixar de sorrir,
Extasiada com tamanho encanto.

17 de Maio de 2009

16/05/09

Percepção

Na sala vazia que é a minha mente
Frases repetem-se como ecos dispersos com vida própria
Frases que são pedaços de momentos insignificantes
Mas que por algum motivo o meu subconsciente reteve.
E por mais que eu tente encontrar padrões
Nada mais posso concluir que são aleatórias
Estas imagens fragmentadas
Como diapositivos projectados na parede.
E a sala vazia que é a minha mente
Jamais estará vazia, de verdade,
Pois estas coisas incorpóreas que me assombram
E vão consumindo toda a minha paz
Multiplicam-se como vozes na cabeça.
A cada momento que vivo corresponde um já vivido
E a cada momento vivido corresponde um sorriso.
E depois, ao recordá-los, vêm as lágrimas fáceis
Seguidas por gargalhadas generosas
E tudo deixa de fazer sentido.
Porque me assombram estes pormenores recordados?
Estas fotografias de sorrisos, toques e olhares?
Estes sons de júbilo e conversas sérias?
Porque não me deixam em paz
Lembrando-me que outrora fui feliz,
Quando o tempo era um lugar estranho,
E passava sem uma real percepção?

16 de Maio de 2007